O caminho livre das tecnologias educacionais

A capacidade de aprender é provavelmente o maior diferencial dos profissionais e das organizações destes tempos turbulentos. Enfrentando desafios cada vez mais complexos, precisamos recorrer a novos recursos que nos permitam evoluir de maneira mais eficiente e ágil. A inteligência coletiva, que corresponde aos mecanismos que sintetizam e aprimoram contribuições individuais em relação a um objetivo maior, aparece como um fenômeno promissor neste contexto. Como entendê-la e explorá-la? Afinal, qual o impacto competitivo das novas tecnologias e metodologias de desenvolvimento na capacidade de aprendizagem das nossas organizações?
 
Desde os primórdios da humanidade, a capacidade do ser humano de registrar os seus pensamentos em algum suporte, seja ele a parede de uma caverna, um papiro ou um chip de silício, foi condição sine qua non ao seu desenvolvimento. Jack Goody, antropólogo inglês, mostrou no livro “A razão gráfica”, de 1979, como o ato de escrever impactava nos processos cognitivos. Basicamente, a projeção de um pensamento em algum suporte representa um avanço significativo de sua compreensão por duas razões. Primeiro, porque traz a oportunidade de relê-lo, repensá-lo e aperfeiçoá-lo. Segundo, porque o suporte é também uma maneira de desafiar limites de tempo e espaço para submeter o produto do seu pensamento a outros seres susceptíveis de comentá-lo, criticá-lo e aprimorá-lo.
 
Neste sentido, Goody explica como o suporte que se escolhe para projetar o seu pensamento não é neutro. O fato de escrever suas ideias numa folha em branco ou de organizá-las em uma tabela influencia o próprio autor e, consequentemente, os seus leitores no entendimento do conceito. Assim, desde a industrialização dos processos de reprodução (Gutemberg, séc. XV), tal fenômeno vem se multiplicando e dando a oportunidade a um volume muito maior de pessoas alfabetizadas de terem acesso a essa informação para desenvolver os seus conhecimentos nas mais diversas áreas.
 
Se a natureza do suporte é um elemento de primeira importância na aprendizagem, a internet é uma resposta natural da humanidade a essa necessidade de se expressar, comunicar, alterar, discutir e aprimorar o seu conhecimento. Se a Web 1.0 foi uma transferência das mídias tradicionais para a internet, a Web 2.0 soube explorar de maneira mais avançada a inteligência coletiva, oferecendo uma facilidade muito maior para que qualquer usuário pudesse dar a sua contribuição. A Wikipédia surgiu como um símbolo dessa nova era. Ela demonstrou que, fornecendo um padrão de publicação e validação (uma gramática) a uma comunidade em constante crescimento, era possível criar a maior e melhor base de informações do mundo atual. A tecnologia permitiu renovar a tradição enciclopédica colaborativa iniciada por Diderot e d’Alembert, na França, no século XVIII. Mais do que uma revolução, trata-se de uma evolução natural; os seres humanos sempre tiveram tendência a optar por soluções que os libertassem de restrições desnecessárias.
 
Desse modo, a informação gerada pelos usuários revolucionou a internet e a mídia em geral com dois pré-requisitos. Primeiro, oferecer a todos o poder de criar, editar, indexar e publicar qualquer conteúdo. Depois, permitir a um grupo mais restrito de especialistas moderar e estabilizar as contribuições. Novos modelos de negócios surgiram desse fenômeno e o mais brilhante exemplo foi o Google, que se tornou líder tecnológico dessa era, explorando justamente a inteligência proveniente das relações que existem entre os conteúdos para oferecer simplesmente o que todo mundo precisava: a sua organização!
 
O mesmo Google acabou de anunciar que irá lançar, em 2010, um sistema operacional de código aberto. A ofensiva não tem em si nada de assustador para o líder do mercado que ocupa uma posição quase monopolística, a não ser pela capacidade do Google de catalisar as contribuições dos usuários para oferecer um serviço melhor. O que fará diferença para a empresa de Moutain View é conseguir mobilizar a inteligência coletiva ao redor do seu projeto. Foi assim que o Facebook, que chegou mais tarde no mercado das redes sociais, superou todas as outras abrindo parte do seu código para que os desenvolvedores pudessem contribuir com suas aplicações.
 
A nova era da computação pertence a quem souber aproveitar o potencial da inteligência coletiva de maneira eficiente e ágil, garantindo qualidade. Para isso é necessário definir uma linguagem e os padrões para que a comunidade possa contribuir de maneira eficiente. Não é só o conteúdo gerado pelos usuários que faz o diferencial, mas também a velocidade e a qualidade das evoluções dos serviços. As soluções de software livre sofreram com a falta de agentes estruturantes que pudessem sustentar uma estratégia em longo prazo. Isso está mudando.
 
Neste contexto, a competitividade das nossas organizações depende também da nossa capacidade de integrar rapidamente soluções tecnológicas que permitam às equipes aprender de maneira mais rápida e eficiente. Se o conhecimento e as maneiras de aprender estão em constante evolução, as plataformas de aprendizagem mais competitivas serão naturalmente aquelas com maior capacidade de adaptação. Se já observamos um crescimento exponencial do uso dessas soluções nas áreas acadêmica e pública, as corporações ainda precisam de maiores garantias para escolher soluções livres. A cultura organizacional precisa evoluir para que se aceite que software não é mais um produto fechado, mas um serviço em constante processo de aprimoramento. 
 
Se duas cabeças pensam melhor do que uma, não é difícil imaginar o potencial de uma comunidade mundial focada em solucionar os seus problemas.

Todos os artigos de Romain Mallard

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